As vítimas do glúten

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Acredita-se que até 6% da população mundial tenha intolerância ao glúten. Para essas pessoas, ingerir alimentos que contenham a proteína é sinônimo de mal-estar e problemas digestivos. Um subgrupo, que reúne 1% das pessoas, tem a chamada doença celíaca. O tema é relativamente novo para o público em geral, e os diagnósticos ainda são escassos: segundo um estudo da Clínica Mayo, nos EUA, 75% dos celíacos nem sabem que têm a doença.
A doença celíaca é uma síndrome autoimune, ou seja, em que as células do sistema imunológico atacam o próprio organismo – um processo desencadeado pela ingestão de glúten. Nesses casos, o consumo de qualquer alimento que contenha a substância deve ser eliminado dos hábitos alimentares. “O consumo do glúten faz com que as células de defesa ataquem o próprio organismo. Isso destrói as glândulas, causando uma atrofia do intestino”, explica o gastroenterologista Flávio Steinwurz, do Hospital Albert Einstein. A doença celíaca é de origem hereditária, ou seja, é transmitida de geração em geração.
Ainda que o tema pareça (e de certa forma seja) novo, a doença celíaca está entre nós há muito tempo. O primeiro relato dela data de 100 a.C., com o médico grego Arataeus – que a chamou de “diátese abdominal”. Seus escritos foram traduzidos para o latim em 1552, quando a palavra grega para “abdominal”, koiliakos, foi traduzida para o latim como “coeliacus” – de onde deriva o termo celíaco. Mas as reais causas da doença permaneceram obscuras até 1953, quando pesquisadores identificaram a ligação dela com o glúten.
Os sintomas mais típicos da doença celíaca (que, é bom lembrar, só pode ser diagnosticada por um médico) incluem diarreia, desconforto abdominal, vômitos, irritabilidade, falta de apetite e anemia. A longo prazo, a pessoa pode apresentar deficiência de ferro, osteoporose, emagrecimento, dermatites, redução dos níveis de cálcio, alterações hepáticas e prisão de ventre. Algumas pesquisas, no entanto, sugerem que as consequências podem ir muito além do intestino. Um exemplo é a dermatite herpetiforme, uma doença crônica que causa sensação de queimadura e coceira na pele. Descoberta em estudos realizados nos anos 60, ela foi a primeira evidência de que a doença celíaca poderia ter efeitos que vão além do sistema digestivo.
Revelações como essa desencadearam uma série de estudos similares, e a hipótese de que os danos poderiam chegar ao cérebro logo foi levantada. Análises feitas em pacientes com disfunções neurológicas mostraram a prevalência de doença celíaca em um número espantoso de casos: de 10% a 22,5% dos doentes mentais. Inicialmente, acreditava-se que os danos cerebrais poderiam ser causados pela deficiência de vitaminas, em decorrência de uma má absorção de nutrientes. Mas testes posteriores descobriram processos inflamatórios que afetavam o sistema nervoso central – e que poderiam ser desencadeados pela alergia ao glúten.
Um estudo da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, encontrou manifestações neurológicas de sensibilidade ao glúten. Entre elas, a chamada ataxia cerebral, que resulta na perda progressiva da coordenação motora e está associada a uma degeneração no cérebro.
Durante 13 anos, os cientistas acompanharam 500 pacientes que sofriam dessa doença. Um em cada cinco apresentava sensibilidade ao glúten. Entre os casos mais graves, a porcentagem era ainda maior: 45%. Pacientes com esquizofrenia e autismo também podem ser afetados por proteínas como o glúten e a caseína (presente no leite). Mas isso só acontece quando há outros fatores associados, como deficiências enzimáticas ou alterações no intestino. Nesses casos, o glúten pode chegar ao cérebro e interferir na comunicação entre os neurônios. Por isso, retirá-lo da dieta de esquizofrênicos e autistas pode melhorar a coordenação motora, a comunicação e o uso da linguagem – além de diminuir o déficit de atenção. O mesmo ocorre com a eliminação do leite e de seus derivados. “Não é a cura do autismo pela dieta. O que acontece é uma melhora do quadro clínico e, depois, a estabilidade desse quadro”, afirma a nutricionista Nádia Isaac da Silva, autora de uma pesquisa sobre a relação entre hábito alimentar e o autismo. O ganho, ressalta, é gradual e pode levar meses até que a situação apresente alguma melhora.

E SE EU QUISER TENTAR?

Não há grandes prejuízos em excluir o glúten da dieta, segundo o gastroenterologista Flávio Steinwurz. “É possível até que esse hábito melhore a qualidade da alimentação, uma vez que o indivíduo pode substituí-lo por opções saudáveis, como frutas e legumes”, afirma. De toda forma, é melhor ter uma dieta balanceada do que cortar apenas um ingrediente e esperar milagres. “Grande parte dos casos de obesidade se deve a uma alimentação desequilibrada e à falta de atividade física”, diz a nutricionista Fabíola. “Antes de pensar em qualquer restrição mais drástica, várias mudanças mais básicas devem ser realizadas. A retirada do glúten pode vir a ser um tratamento auxiliar”, completa.
Há quem acredite que a culpa pela explosão nas alergias alimentares nem está na comida em si. O que pode estar nos deixando doentes é, acredite, a higiene – o excesso dela. Quem nunca ouviu um pai ou avô dizendo que criança tem mesmo é que se sujar? O corpo humano evoluiu para sobreviver em ambientes imundos, lotados de microrganismos causadores de doenças (na Idade Média, as cidades europeias tinham fossas a céu aberto). Tanto que, dentro do seu corpo, há cerca de dez vezes mais células “invasoras”, vírus e bactérias de todos os tipos, do que células humanas. A melhoria nas condições sanitárias e a invenção dos antibióticos, no século 20, salvaram inúmeras vidas. Mas também podem ter deixado nosso sistema imunológico ocioso, sem muito o que fazer – e pronto para atacar coisas que não são inimigas, como os alimentos. Essa é a chamada “hipótese da higiene”, segundo a qual a alergia estaria crescendo porque as crianças de hoje são muito limpas. Segundo um estudo da Universidade de Florença, a menor exposição a micróbios nos primeiros anos de vida pode ser a causa do aumento de alergias alimentares.
Ironicamente, reduzir a exposição ao glúten pode aumentar seus efeitos ruins, principalmente em crianças. Na década de 1980, ele virou vilão da dieta infantil na Suécia. Entre 1984 e 1996, os médicos do país recomendaram que as mães retardassem a exposição dos bebês a papinhas que contivessem a proteína. O resultado foi uma explosão de doença celíaca, que aumentou 300% no período. O organismo das crianças passou a rejeitar o glúten, porque não tinha sido exposto a ele quando estava fabricando os primeiros anticorpos. Hoje, os médicos suecos mudaram de opinião, e recomendam que bebês ingiram pequenas quantidades de alimentos com glúten já durante o período de amamentação (a partir dos 5 meses de idade).
Ainda há muito a ser descoberto sobre a ação do glúten no corpo humano. Mas tudo indica que ele não é totalmente inocente – nem o terrível vilão que se imagina. Acreditar que uma única substância possa estar na raiz de todos os problemas alimentares modernos pode ser uma aposta perigosa. Até porque você não se alimenta de um único tipo de comida. Além de pouco saudável, seria bem enjoativo.

Como saber se você tem alergia a glúten

Sinais de que ele pode estar fazendo mal

Sensação de barriga inchada.

Diarreia ou prisão de ventre.

Persistência dos sintomas, com dias consecutivos de mal-estar e dores no abdômen, principalmente após refeições.

Anemia. A doença celíaca diminui a capacidade de absorção dos nutrientes. Por isso, pode provocar anemia.

Até alimentos que não deveriam conter trigo, como o molho de tomate, têm pequenas quantidades dele – e de glúten.

Alternativas ao glúten

Opções de alimentos que não contêm a proteína

Rico em glúten – Granola e cereais diversos

Alternativa – Flocos de milho

Rico em glúten – Pães

Alternativa – Tapioca ou pães feitos sem trigo, como pão de batata ou pão de linhaça

Rico em glúten – Sopas e molhos prontos

Alternativa – Sopas e molhos feitos em casa, sem farinha de trigo

Rico em glúten – Macarrão

Alternativa – Macarrão de quinoa ou de arroz

Rico em glúten – Pizza

Alternativa – Existem pizzas especiais feitas com farinha de arroz, milho, linhaça ou soja

Rico em glúten – Bolos e doces

Alternativa – Bolos e doces feitos com farinha de arroz, polvilho ou goma xantana

A cerveja é duplamente atraente porque dois de seus componentes, álcool e glúten, interferem com os receptores opiáceos – estruturas que existem em 15 regiões do cérebro e produzem relaxamento e prazer.

Não é só ele

Outros alimentos, além do trigo, também podem provocar alergias. Em alguns casos, graves

Leite

A intolerância à lactose ocorre em pessoas cujo intestino não produz as enzimas que fazem a digestão dos açúcares do leite. Pode ser detonada por reações alérgicas ao glúten (que danificam o intestino). Os sintomas são desconforto gastrointestinal. Cerca de 30% dos americanos, e até 90% dos africanos e asiáticos, têm o problema em algum grau.

Amendoim

Ele parece inocente – mas, para algumas pessoas, pode ser bem perigoso. Só nos EUA, cerca de cem pessoas morrem a cada ano de reações ao amendoim. Esse tipo de alergia vem crescendo bastante, e afeta 1,4% da população (contra 0,4% em 1997). Quando a pessoa alérgica a esse alimento entra em contato com ele, sua glote incha, se fecha, e a vítima pode morrer por asfixia.

Álcool

Para quem sofre de asian flush (algo como “ruborescimento asiático”), como a síndrome é conhecida, um prosaico chopinho no final do expediente pode desencadear sintomas como dores de cabeça, náuseas e um aumento da pressão arterial – mais ou menos como ter uma ressaca misturada com taquicardia. O problema acontece devido à escassez de uma enzima do fígado chamada ALDH2, e é mais comum em pessoas de origem asiática.

Não adianta cortar o glúten da dieta e continuar abusando de alimentos muito calóricos. Como os bolos: que contêm até 30% de gordura.

Fonte: Robson Pandolfi (Revista Super Interessante)

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